sexta-feira, 3 de abril de 2009

O misterioso caso do celular desaparecido



Sempre que posso vou à casa de minha avó. Conversar um pouco com pessoas mais velhas é sempre uma boa experiência. Ou você aprende algo sobre a vida ou você aprende a encontrar o prazer em contos simples do cotidiano.

Há pouco tempo ela aprendeu o manuseio de um celular. Tanto é que já tem dois, um de cada operadora. Esses dias, quando aprendeu a trocar o chip, achou essa função muito difícil. Prefere carregar o peso de dois aparelhos a carregar a culpa de sua pouca destreza. Ela disse que sempre anda com dois lenços, um em cada mama. Não que a falta de tamanho pede um aumento, mas é porque viu uma notícia na TV de que celular transfere radiação ao corpo, e o medo em tempos de câncer não é nada remoto. Os lenços isolam seu corpo dos aparelhos. Sim, ela coloca cada aparelho em cada mama. Um Vivo na direita e um Brasil próximo ao coração.

Dias atrás ela foi à casa de meu tio, seu filho, numa visita corriqueira. Ia a dificuldade de caminhar com o peso de dois aparelhos no corpo. Ela não é magra, mas esforça-se em manter o peso conseguido após vários regimes. Digamos que seu corpo tem curvas, mais curvas que os demais corpos. Sempre caminha em vestidos longos. Uma bermuda por baixo, pois calcinhas não são confortáveis. Não para aquele corpo.

Voltou para casa. Não estava mais leve, porém o celular não estava no lado direito, seu local habitual. Achou tê-lo perdido. E confiou nisso. Preferiu acreditar que o deixara na casa de seu filho. Então ligou para averiguar o paradeiro do celular. Não estava lá. Insistiu. Continuava não estando lá.

Teve a idéia de ligar para o número desaparecido usando o outro aparelho. Estava na sala. Estavam na sala. Mas, onde? A canção de James Blunt tocava e tocava e tocava, naquela sala. Próximo a ela. Mas onde? Onde? Deve estar no quarto, pensou. Era tão perto da sala seu aposento. Ligou mais uma vez. Tocou a mesma música até desligar. Pensou ser algo d’outro mundo. Como o celular poderia estar em dois lugares? Quando ela estava na sala, ele estava lá. Quando estava no quarto, o celular estava também. Estranho.

-Bem, vem almoçar – disse meu avô, seu marido – Depois você procura o celular.

Foi para a cozinha. Sentou. Almoçou. Regozijou.

-Acho que você comeu esse aparelho – ressaltou meu avô.

-Ai, bem, que isso? Nunca né! Quer ver, ele está ali no quarto. Escuta só o toque.

“Give me reason, but don’t give me choice. Cause I’ll just make the same mistake again”.

O olhar assustado de meu avô preenche os olhos de vergonha de minha avó. Risos, risos e risos. Incontida de vergonha, segue para o quarto. Retira o longo vestido. Não estava no sutiã. Retira a bermuda e o períneo estava Vivo.

-Bem!!! Eu falei que ele estava no quarto.

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